Resgate do Mito

“Então se diz: ‘Não mais mistérios; todo inexplicado será explicável um dia; o sobrenatural baixa como um lago que um canal consome; a ciência, a todo momento, diminui os limites do maravilhoso’.

O maravilhoso! Outrora ele cobria a terra. Era com ele que ensinávamos as crianças; os homens se ajoelhavam diante dele; o ancião, à beira da tumba, arrepiava-se desvairado ante as concepções da ignorância human.

Mas os homens vieram, os filósofos à frente, depois os sábios, e adentraram com ousadia esse espessa e temida floresta de superstições; eles a cortaram sem cessar, abrindo caminhos para permitir que outros viessem; e depois se puseram a desbravá-la com fúria, produzindo o vazio, a planície, a luz ao redor deste bosque terrível.

A cada dia eles reasseguram sua fileiras e ampliam as fronteiras da ciência; e esta fronteira da ciência é o limite de dois campos. Deste lado, o que era até ontem, o não conhecido; do outro, o desconhecido que será conhecido amanhã. Esse resto de floresta é o único espaço deixado ainda para os poetas, para os sonhadores. Pois nós temos sempre uma invencível necessidade de sonhar; nossa antiga raça, acostumada a não compreender, a não indagar, a não saber, feita dos mistérios envolventes, recusa-se à verdade pura e simples. A explicação matemática de suas lendas seculares, de suas poéticas religiões, causa-lhe indignação, como sacrilégio! Ele se agarra a seus fetiches, insulta os lenhadores, apelando desesperadamente aos poetas.

Apressem-se, oh poetas, vocês não têm mais do que um pedaço de floresta para onde nos conduzir. Este é de vocês ainda; mas que não se enganem, que não tentem entrar no espaço que acabamos de explorar.

Os poetas respondem: ‘O maravilhoso é eterno. Que importa a ciência reveladora, já que temos a poesia criadora! Nós somos os inventores de ideias, inventores dos ídolos. Os artífices dos sonhos. Conduziremos sempre os homens pelo país maravilhoso, povoado dos seres extraordinários que nossa imaginação cria’.

Pois sim! Os homens não lhe seguirão mais, oh poetas. Vocês não têm mais o direito de nos enganar. Não temos mais a força de acreditar em vocês. Suas fábulas heroicas não nos dão mais ilusões, seus espíritos, bons ou maus, nos fazem rir. Seus pobres fantasmas são tão mesquinhos quando os comparamos a uma locomotiva que corre com seus olhos enormes, voz estridente, com seu sudário de vapor branco que a segue rodeando-a na noite fria. Seus miseráveis e pequenos duendes subsistem dependurados nos fios do telégrafo! Todas as suas criações bizarras nos parecem infantis e antigas – tão antigas, tão usadas, tão repetidas! Liam-se dia após dia esses livros de exaltados frenéticos, de bardos obstinados, de operários do misterioso. Acabou-se, acabou-se. As coisas não falam mais, não cantam mais, elas têm suas leis. A fonte murmura simplesmente a quantidade de água que ela despeja!

Adeus, mistérios, velhos mistérios de velhos tempos, velhas crenças de nossos pais, velhas lendas infantis, velho cenário do velho mundo!

Estamos tranquilos agora, com um sorriso de orgulho, diante da antiga ira dos deuses, da ira de Júpiter e de Jeová, aprisionados em garrafas.

Sim, viva a ciência, viva o gênio humano! Glória ao trabalho deste pequeno animal pensante que levanta um a um os véus da criação!

O grande céu estrelado não nos espanta mais. Conhecemos as fases da vida dos astros, as figuras de seus movimentos, o tempo que necessitam para lançar luz.

A noite não nos apavora mais, já não tem nem fantasmas nem espíritos para nós.tudo que chamávamos de fenômeno é explicado por uma lei natural. Não acredito mais nas histórias ignorantes de nossos pais. Eu, por mim, chamo de histéricos os que viveram milagres. Eu raciocino, eu examino, eu me sinto liberto das superstições.

Todavia, independentemente de minha inteligência, da minha razão, do meu desejo de felicidade que encontro nesta emancipação, todos os véus levantados

Me entristecem. Pois me parece  que, agindo assim, nós despovoamos, nós despojamos o mundo. Suprimimos o Invisível. E, assim, tudo me parece mudo, vazio e abandonado!

Quando saio à noite, ah, como gostaria de poder me arrepiar com aquela angústia que leva as velhas senhoras a fazer o sinal da cruz ao longo do muro dos cemitérios e a justificar os últimos supersticiosos ante os estranhos vapores dos pântanos e os extraordinários fogos-fátuos. Como gostaria de acreditar em qualquer coisa vaga e terrificante que imaginamos perceber passar na sombra! Como as trevas das noites deviam ser mais negras, fervilhando com todos esses seres fabulosos!”.

Fonte: MAUPASSANT, Guy. 125 contos de Guy Maupassant. Seleção e apresentação de Noemi Moritz Kon. Tradução de Amilcar Bettega. São Paulo: Cia das Letras, 2009. pp. 23 – 25.

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